A recessão derrubou o argumento?
Não. A recessão foi real, foi grave, e elevou a desigualdade por quatro anos. Mas o GINI voltou a cair em 2020 e pulverizou o recorde em 2024. Se a base distributiva fosse artificial, ela não teria sobrevivido.
Não. A recessão foi real, foi grave, e elevou a desigualdade por quatro anos. Mas o GINI voltou a cair em 2020 e pulverizou o recorde em 2024. Se a base distributiva fosse artificial, ela não teria sobrevivido.
GINI da renda do trabalho · IBGE PNAD · 2010–2024 · queda, repique, queda, recorde
Em 2015, o PIB caiu 3,5%. Em 2016, caiu mais 3,3%. A combinação foi a pior recessão brasileira desde a década de 1930, com 13 milhões de desempregados no pico. O GINI subiu — tinha que subir. Quando o trabalho some, a renda do trabalho some primeiro nos extremos: o trabalhador formal segura mais tempo, o informal cai antes. A pergunta honesta não é se a recessão piorou a desigualdade. A pergunta honesta é se a recessão revelou que a queda anterior era ilusão.
A Nova Matriz Macroeconômica do segundo mandato de Dilma é, hoje, consenso entre economistas críticos e simpáticos: foi equivocada. A combinação de juros baixos forçados, expansão fiscal pró-cíclica, intervenção em preços administrados (combustíveis, energia) e desonerações sem contrapartida produziu desequilíbrios que estouraram em 2015. O ajuste fiscal chegou tarde, em 2015 — e em recessão, ajuste fiscal aprofunda recessão. É álgebra macro básica que o governo ignorou.
O resultado é mensurável e doloroso. Desemprego subiu de 6,8% (2014) para 13,7% (2017). Renda média do trabalho caiu 4,3% em termos reais entre 2014 e 2017. O GINI subiu de 0,515 (2014) para 0,545 (2018). Quem vê esses números e diz "está tudo bem, foi só ciclo" não está sendo honesto. Foi erro de política econômica, com custo distributivo concreto. O Bate Recorde reconhece isso.
Aqui é onde o crítico precisa enfrentar o dado seguinte. Se a queda do GINI até 2014 fosse artificial — sustentada apenas por commodities, por crédito subsidiado, por gasto público insustentável — a recessão teria desfeito o ganho permanentemente. O GINI voltaria para níveis de 2002 ou piores. Não foi o que aconteceu.
Em 2020, com auxílio emergencial, o GINI cai a 0,489 — o recorde provisório. Em 2021–2022, sem auxílio, sobe para 0,529 (efeito rebote esperado). Em 2023, com Bolsa Família ampliado e mercado de trabalho retomando, cai para 0,518. Em 2024, atinge 0,506 — recorde sustentável. Esse é o ponto factual: a infraestrutura redistributiva (Bolsa Família, regra do mínimo, formalização) ficou em pé. A recessão a comprimiu. Não a destruiu.
Se a base fosse artificial, ela não teria voltado. Voltou, duas vezes — em 2020 sob choque, em 2024 sob trabalho normal — e ficou mais baixa no segundo retorno que em qualquer momento de Dilma 1.
Há um teste bom para distinguir política redistributiva conjuntural de política redistributiva estrutural: tira o ciclo econômico favorável e veja o que sobra. Foi o que a recessão de 2015–2016 fez involuntariamente. Sobrou o desenho do Bolsa Família, sobrou a regra de valorização do mínimo (suspensa em 2017–2022, retomada em 2023), sobrou o CadÚnico com 96 milhões de pessoas registradas, sobrou a rede de proteção que permitiu desenhar o auxílio emergencial em três semanas no início de 2020.
Países com redistribuição apenas conjuntural não conseguem desenhar transferências de emergência em três semanas. O Brasil conseguiu porque tinha CadÚnico, tinha Caixa, tinha Dataprev integrado. A infraestrutura institucional construída entre 2003 e 2014 sobreviveu à recessão, sobreviveu ao governo Temer, sobreviveu ao governo Bolsonaro. Quando a economia voltou a crescer e o salário mínimo voltou a ter regra, o GINI desabou.
O crítico tem razão em apontar que a gestão macroeconômica de Dilma 2 foi ruim. Tem razão em apontar que houve perda distributiva real entre 2014 e 2018. Tem razão em desconfiar de modelos que confundem ciclo positivo com mérito de política. Tudo isso é parte honesta do debate.
O que o crítico não pode afirmar é que a recessão derrubou o argumento da queda estrutural. A pergunta é empírica e o Brasil já respondeu duas vezes. Em 2020, sob choque pandêmico, com economia parada, a desigualdade foi a 0,489 — graças à infraestrutura existente. Em 2024, sem choque, com trabalho normal, com 74,9% da renda vindo de salário, a desigualdade foi a 0,506 — recorde sustentável da série histórica. Uma recessão grave atrasou. Não desfez.
Estruturas distributivas resistentes são chatas de medir. Não aparecem em manchete. Aparecem na resposta a choques: quem desenha auxílio emergencial em três semanas, quem retoma tendência depois de uma recessão profunda, quem bate recorde dez anos depois do recorde anterior. Em todos esses testes, a arquitetura montada entre 2003 e 2014 passou. A recessão de 2015–2016 foi prova de fogo. Encolheu a estrutura. Não a incendiou.