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Entenda · Trilha 'Mitos e contra-argumentos'

Foi só sorte com commodities?

A acusação tem fundo — sem commodities, o crescimento do PIB nos anos 2003–2010 teria sido mais modesto. Mas a queda do GINI no mesmo período não veio do PIB. Veio da composição do crescimento. Veja.

Preço de commodities — Índice CRB
GINI brasileiro

Preços de commodities versus desigualdade · CRB Index · IBGE · 2000–2024

A crítica é antiga e merece resposta. Toda vez que o GINI brasileiro cai, alguém aponta o calendário: foi sorte. Foi a China comprando soja. Foi o boom do minério de ferro. Foi o petróleo a US$ 140. Política redistributiva, dizem, foi coadjuvante; protagonista foi o ciclo internacional de commodities. A acusação tem mérito parcial — e exige resposta honesta, não defensiva.

01O que o crítico está dizendo (e está parcialmente certo)

Entre 2003 e 2011, o índice CRB de commodities triplicou. As exportações brasileiras saltaram de US$ 73 bi para US$ 256 bi. Soja, minério, carne e petróleo responderam por 60% do crescimento da pauta exportadora. O Centro de Estudos Econômicos da CNI estimou em 2014 que, sem o boom de commodities, o PIB brasileiro teria crescido em média 2,1% ao ano no período (em vez dos 4,1% observados). Metade do crescimento agregado é explicado pelo ciclo externo. Isso é fato, não interpretação.

Crítico nenhum precisa concordar com tudo o que defendemos para ter razão nesse ponto. O Brasil teve sorte com o calendário internacional. Negar é fragilizar a discussão honesta. Mas aceitar essa premissa não obriga a aceitar a conclusão. As duas coisas — crescimento agregado e redução da desigualdade — são separáveis. E os dados mostram que se separam.

02Mas crescimento e redução da desigualdade são duas coisas

Crescimento de PIB diz quanto a economia produz no total. Desigualdade diz como esse total se distribui. Países podem crescer com desigualdade subindo (China entre 1990 e 2010) ou cair com desigualdade caindo (Coreia do Sul entre 1965 e 1995). O ciclo de commodities afeta o primeiro indicador mecanicamente — preço sobe, receita exportadora sobe, PIB sobe. Não afeta o segundo indicador mecanicamente.

O GINI cai quando os mais pobres crescem mais rápido que os mais ricos. Entre 2003 e 2014, dados da PNAD desagregados por decil mostram que a renda real dos 50% mais pobres cresceu 71% no período, enquanto a dos 10% mais ricos cresceu 16%. É a razão entre esses dois números, não a média, que move o GINI.

O estudo de Soares (IPEA, 2010) decompôs as fontes da queda do GINI no período: 30% vieram do salário mínimo, 25% das transferências de renda, 20% da formalização do trabalho, e os 25% restantes de outros fatores (educação, demografia, urbanização). Commodities aparecem indiretamente — financiaram parte do orçamento que sustentou as transferências —, mas não como causa direta da redistribuição.

O boom de commodities explica o crescimento agregado, mas não a composição do crescimento. Pobres crescendo mais que ricos é política, não preço de soja.

03Teste decisivo: o que aconteceu depois de 2014?

A tese "foi só sorte" tem um teste empírico claro: o que aconteceu quando a sorte acabou. Entre 2014 e 2016, o índice CRB caiu 38%. Soja, minério e petróleo despencaram. Se a desigualdade brasileira fosse função do preço de commodities, o GINI deveria ter saltado de volta com a mesma velocidade com que caiu.

Não saltou. O GINI passou de 0,515 em 2014 para 0,545 em 2018 — alta de 6%, modesta perto da dimensão da queda anterior. A alta que ocorreu pode ser explicada por outros fatores contemporâneos: recessão de 2015–16, salto do desemprego para 12%, suspensão da regra de valorização do salário mínimo. Não pelo preço da soja.

Em 2022–2024, sem que commodities tivessem retomado o pico de 2010, o GINI voltou a cair. Em 2024 ele bate o recorde histórico (0,506). O índice CRB em 2024 está 22% abaixo do pico de 2011 — em patamar intermediário. Não há leitura razoável dessa série em que commodities expliquem o comportamento da desigualdade dos últimos dez anos.

04E o resultado de 2024?

O GINI de 0,506 em 2024 é, na narrativa do crítico, o caso mais difícil de explicar. As commodities não estão em pico. O ambiente fiscal é apertado. E mesmo assim a desigualdade bate recorde. A explicação é estrutural: as transferências consolidadas (Bolsa Família, BPC), a retomada da valorização do mínimo em 2023, e a recuperação do mercado formal de trabalho fizeram a curva andar de novo.

Esse é o ponto que o teste empírico de 2014–2024 deixa difícil de contestar: o componente redistributivo da economia brasileira é separável do componente externo. Quando o externo cai, o GINI sente — mas não da mesma forma. Quando os mecanismos redistributivos operam, eles operam mesmo sem commodities em pico. Trinta anos de política pública, enraizada em três governos diferentes, não se desmontam só porque o calendário internacional muda.

A acusação "foi só sorte" é meia-verdade que vira mentira na conclusão. O Brasil teve sorte, sim — e seria desonesto fingir que não teve. Mas usou a sorte para construir mecanismos redistributivos que sobreviveram quando a sorte acabou. Esse é o teste de toda política pública séria: o que sobra quando o vento gira. No caso brasileiro, sobrou o suficiente para bater o recorde do GINI dez anos depois do fim do boom.