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Entenda · Trilha 'Como funcionou'

PROUNI, FIES e a mobilidade que veio depois

De 2004 a 2014, o Brasil dobrou o número de jovens com diploma superior — de 5,1 para 11,3 milhões. Universidades federais expandiram para o interior, e PROUNI/FIES abriram acesso a privadas para 6 milhões de estudantes.

Jovens (25–34 anos) com ensino superior completo · IBGE PNAD · 1990–2024

Em 1990, apenas 4,8% dos jovens brasileiros entre 25 e 34 anos tinham diploma de ensino superior. Em 2024, são 23,6%. A aceleração começou em 2004, quando programas de acesso e expansão de universidades federais transformaram a fronteira educacional do país. Foram 6 milhões de bolsas e financiamentos, 18 universidades federais novas e 173 campi no interior.

Diploma superior dobra o salário médio de quem tem só o ensino médio. É a transferência intergeracional mais cara que o Estado oferece — e historicamente a mais concentrada no topo.

Por décadas, universidade pública no Brasil foi destino quase exclusivo de quem podia pagar cursinho. As privadas eram caras e mal avaliadas. O resultado é o paradoxo conhecido: o estudante rico estudava de graça e o pobre pagava — quando conseguia. A partir de 2004, três políticas começaram a desmontar esse arranjo: PROUNI, FIES e a expansão das federais.

As três tinham desenhos diferentes e funcionaram juntas. Não equivale dizer que tudo deu certo — há problemas conhecidos com o FIES e críticas legítimas sobre qualidade de cursos privados. Mas, no conjunto, mudaram o perfil de quem chega ao diploma.

01ProUni e FIES — como funcionaram

O PROUNI (2004) é uma troca: a União renuncia a impostos federais de instituições privadas em troca de bolsas integrais e parciais para estudantes de baixa renda aprovados no ENEM. De 2005 a 2024, foram 3,2 milhões de bolsas concedidas, 70% delas integrais. O custo fiscal estimado é de R$ 1,8 bilhão por ano em renúncia — contra R$ 28 bilhões/ano gastos em universidades federais.

O FIES (existia desde 1999, expandido em 2010) é financiamento subsidiado: o estudante pega empréstimo público a juros baixos para pagar mensalidade da privada, e começa a pagar depois de formado. Atendeu 2,8 milhões de estudantes no auge (2010–2015). A partir de 2015, sofreu reformas para conter inadimplência; hoje opera em escala menor, com critérios mais rígidos.

02Universidades federais e expansão para o interior

Entre 2003 e 2014, o REUNI (Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais) dobrou as vagas oferecidas pelas federais — de 113 mil para 245 mil ao ano. Foram criadas 18 novas universidades e 173 campi, a maioria fora das capitais. A UFOPA no Pará, a UFFS no sul, a UNILAB na Bahia e Ceará — cada uma trouxe ensino superior público a regiões que nunca tinham tido.

O efeito foi geográfico tanto quanto de classe. O percentual de jovens do Norte e Nordeste com diploma cresceu mais do que o dobro da média nacional. Cidades de 80 mil habitantes passaram a ter campus federal, com efeito multiplicador local — pesquisas do IPEA estimam que cada R$ 1 investido em campus do interior gera R$ 2,30 de PIB municipal em 10 anos.

03Mobilidade social: pais sem diploma, filhos com diploma

O dado mais expressivo está no padrão geracional. Em 2014, pela primeira vez na história, mais da metade dos formandos das federais brasileiras eram primeiros da família a chegar ao diploma. Em algumas universidades novas — UFFS, UNIPAMPA, UNILAB — o número passa de 80%. Não há indicador mais direto de mobilidade social que esse: pais sem diploma, filhos com.

O retorno econômico do diploma também se manteve. Trabalhadores com superior completo ganham, em média, 2,1 vezes o salário de quem só tem ensino médio (RAIS, 2024). Mesmo com o aumento da oferta, o prêmio salarial caiu pouco — de 2,4x em 2003 para 2,1x em 2024. É consequência de uma economia em que demanda por mão de obra qualificada acompanhou a expansão da oferta.

Em 2014, pela primeira vez, mais da metade dos formados das federais eram primeiros da família a chegar ao diploma. Não há medida mais direta de mobilidade social.

Mas hoje há diploma demais e emprego de menos?

A tese do "diploma desvalorizado" circula desde 2015 e tem base empírica parcial: alguns cursos específicos (Direito, Administração, alguns de Pedagogia) realmente formam mais gente do que o mercado absorve. Em outros — Engenharia, Computação, Saúde, áreas técnicas — há escassez crônica. O problema é de mismatch, não de excesso geral.

Os dados de retorno econômico não confirmam a hipótese de desvalorização agregada. O prêmio salarial do diploma caiu modestamente em vinte anos, e segue alto. O desemprego entre formados é metade do desemprego entre quem só tem médio. Cabe discutir qualidade dos cursos, sim — mas a expansão em si continuou produzindo retorno individual e social positivo.

Educação superior é a política redistributiva de horizonte mais longo. Os efeitos se medem em décadas, sobre os filhos e os netos dos beneficiários. PROUNI, FIES e REUNI não são programas que se concluem — são contratos geracionais. Mexer neles é mexer no horizonte de 20 milhões de pessoas que entraram na universidade desde 2005.